O poder das famílias

Como se ignorassem o noticiário e as previsões pessimistas, as famílias brasileiras foram às compras e estão sustentando a recuperação da economia. Os gastos domiciliares não entraram no vermelho nem quando o Produto Interno Bruto (PIB) entrou em recessão, de acordo com dados da MB Associados.

No final de 2008 e nos primeiros três meses deste ano, o consumo das famílias continuou positivo, crescendo sobre os altos índices de 2007 e 2008. Isso foi determinante para evitar uma retração maior, segundo a MB. O Natal foi exemplar: mesmo no olho do furacão, o comércio teve um dos melhores desempenhos dos últimos anos.

Parte da explicação para esse comportamento das famílias, segundo o Ipea, decorre do fato de que o desemprego durante a crise foi puxado por trabalhadores de baixa escolaridade, que não têm Ensino Médio completo. Mas o saldo de empregos cresceu para quem passou mais tempo na escola. Ou seja, houve mais opções para os trabalhadores da classe média, que formam a base do consumo no Brasil.

A percepção de que o monstro da crise não era tão feio assim estimulou as famílias a até gastarem mais. De acordo com estudo da Latin Panel, que acompanha semanalmente a evolução dos gastos de 8,2 mil domicílios, os brasileiros ampliaram em 15% as despesas com o abastecimento do lar no primeiro trimestre do ano, quando o PIB recuou 1,8%.

Isso revela que o comportamento do consumidor é mais complexo do que mostram as estatísticas – e ajuda a explicar porque as famílias não deixaram de gastar apesar do noticiário turbulento. Rosemeri da Silva Chaves, por exemplo, comprou um segundo apartamento em abril, depois de quatro anos de procura. Por que a taquígrafa da Câmara Municipal de Porto Alegre decidiu realizar uma compra importante num momento de incerteza? Rosemeri estava preocupada com a poupança, já que seus gastos mensais vinham crescendo. Em vez de consumir as economias em despesas correntes, preferiu usar o dinheiro para antecipar a aquisição do novo lar.

– O que me fez comprar foi a crise. Tudo estava mais caro e eu estava gastando a minha poupança – diz a taquígrafa de 43 anos.

Embora não tenha recuperado o pico de vendas de 2008, o setor imobiliário está sendo beneficiado pela queda de juros e por consumidores como Rosemeri, que enxergam motivos para gastar durante a incerteza da economia. Imobiliárias e construtoras vêm tendo um início de ano melhor do que em 2008, de acordo com o volume de financiamentos monitorados pela Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), que focam a classe média.

A recuperação, no entanto, não pode ser avaliada como sinal de que a economia vai de vento em popa. Fernando Blumenschein, economista da FGV Projetos, uma unidade da Fundação Getulio Vargas, observa que a evolução dos patamares de produção e vendas representa muito mais um ajuste à melhoria no cenário de confiança do consumidor e do crédito do que um sinal de que a economia brasileira vá crescer em 2009.

– A resposta será dada nos próximos meses. Não sabemos como o consumidor vai se comportar – afirma Blumenschein.
Fonte: ZH